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Despertar é descobrir o amor

Por Valeria Effgen26 de agosto de 20264 min de leitura

Quando falamos em despertar espiritual, é comum imaginarmos algum tipo de expansão extraordinária da consciência. Pensamos em meditação, intuição, sincronicidades, energia, estados elevados de percepção ou na compreensão de dimensões da existência que antes não conseguíamos enxergar. Tudo isso pode fazer parte de uma jornada espiritual. Mas talvez exista uma dimensão muito mais simples e também muito mais exigente do despertar: COMPREENDER O AMOR.

Não o amor como ideia bonita, nem o amor romântico que aprendemos a reconhecer nas histórias. Falo do amor como uma forma de consciência, capaz de transformar a maneira como nos relacionamos conosco, com as outras pessoas e até mesmo com a própria vida.

Nós usamos a palavra amor com enorme facilidade em nosso dia a dia. Amamos nossos filhos, nossos parceiros, nossos pais, amigos. Mas ainda assim, muitas das relações que chamamos de amor estão profundamente misturadas a expectativas, necessidades, medos e tentativas de controle. Queremos o bem do outro, mas muitas vezes queremos que esse bem aconteça da maneira que consideramos correta. Queremos que a pessoa seja feliz, desde que suas escolhas não nos "mexam no nosso queijo". Queremos liberdade, mas sofremos quando a liberdade do outro contraria aquilo que esperávamos dele.

Isso não significa que nosso amor seja falso. Significa apenas que ele ainda pode estar misturado com outras coisas.

Penso que uma das experiências mais profundas do despertar seja justamente começar a perceber essas misturas com mais clareza. Reconhecer onde existe amor, mas também há medo de perder. Onde existe cuidado, mas também controle. Onde existe entrega, mas também necessidade de reconhecimento. Onde acreditamos estar protegendo alguém quando, na verdade, estamos tentando impedir que essa pessoa faça escolhas que nós mesmos não faríamos.

Enxergar isso tudo pode ser desconfortável, porque nos obriga a olhar para dentro. Então a espiritualidade deixa de ser apenas uma busca por conhecimentos sobre os mistérios do universo e passa a ser um exercício de consciência sobre a forma como existimos no mundo.

O amor incondicional, nesse sentido, não significa aceitar tudo, concordar com tudo ou permanecer em relações que nos machucam. Há uma romantização perigosa na ideia de que amar é suportar qualquer coisa. Muitas vezes, o amor mais consciente exige limites, conseguir dizer não, afastar-se, encerrar ciclos ou simplesmente reconhecer que duas pessoas podem seguir caminhos diferentes sem que uma delas precise ser transformada em vilã.

Amar alguém não significa possuir seu caminho.

Essa talvez seja uma das lições mais difíceis porque toca profundamente o nosso querido ego que deseja garantias, reciprocidade, reconhecimento e permanência. O amor, quando amadurece de verdade, começa a compreender que o outro não existe para confirmar nossa visão de mundo.

Podemos amar alguém e ainda assim respeitar uma decisão que não entendemos. Assim como podemos desejar felicidade a uma pessoa mesmo quando já não fazemos parte da vida dela.

Mas atenção, pois existe uma camada anterior a tudo isso: NOSSA RELAÇÃO COM A GENTE MESMO.

É difícil oferecer liberdade ao outro quando vivemos aprisionados em nossas próprias cobranças. É difícil praticar compaixão quando somos implacáveis com nossos erros.

É impossível experimentar amor incondicional quando passamos a vida acreditando que precisamos alcançar determinada versão de nós mesmos para finalmente merecermos amor.

Por isso, o despertar deve também ser compreendido como um movimento de retorno. Um retorno a uma relação mais honesta conosco, à capacidade de olhar para nossa história sem negar nossos erros, mas também sem transformar cada erro em uma condenação, de reconhecer nossas sombras sem concluir que somos indignos por possuí-las e de perceber que evolução não é tornar-se perfeito, mas ampliar a consciência sobre aquilo que fazemos, sentimos e escolhemos.

Assim, em um dado momento, o amor deixa de ser apenas um sentimento e se transforme numa prática espiritual.

Uma prática que aparece na maneira como escutamos, como colocamos limites, como perdoamos, como nos responsabilizamos e como permitimos que os outros sejam diferentes de nós. Esse amor aparece também na nossa capacidade de interromper antigos padrões sem odiar a pessoa que fomos quando ainda não sabíamos fazer diferente.

Quanto mais a consciência se expande, menos sentido faz uma espiritualidade que nos afasta da experiência humana. O verdadeiro despertar, então, talvez não nos torne pessoas capazes de falar sobre assuntos mais elevados, mas sim, nos torne pessoas mais capazes de viver com presença, respeito, compaixão e liberdade.

Agora uma pergunta importante:

Quando dizemos que amamos, quanto desse sentimento é realmente amor e quanto ainda é medo, apego, expectativa ou necessidade?

Não existe uma resposta pronta. E talvez não deva mesmo existir, pois na espiritualidade livre, ninguém precisa entregar a você uma definição definitiva sobre o amor ou sobre o despertar. Cada experiência é única e pessoal. Cada pessoa precisa observar, experimentar, silenciar e descobrir o que se revela em sua própria consciência.

Então só nos resta retirar, pouco a pouco, as camadas de medo, condicionamento e defesa que construímos ao longo da vida até conseguirmos enxergar algo que sempre esteve presente.

E assim descobrimos que, por trás de todas essas camadas, aquilo que finalmente encontramos é o amor.

Despertar é descobrir o amor